PROCEDIMENTOS CONTÁBEIS

Referencial técnico em prática contábil e análise tributária

Estudos técnicos voltados à análise, aos registros e à elaboração de demonstrativos contábeis, com abordagem integrada aos regimes tributários (Simples Nacional, Lucro Presumido e Lucro Real), ao Departamento Pessoal e aos reflexos na tributação da pessoa física


27/10/2026

Ativo Imobilizado sob a perspectiva contábil: conceitos, reconhecimento, depreciação e baixa

Briefing: Pode ser observado que, desde a origem das atividades econômicas, o Ativo Imobilizado é vital para as entidades desenvolverem seus negócios, porém, nem sempre os estudos sobre os conceitos contábeis deste grupo do Ativo foram disponibilizados de modo acessível no meio digital. Tradicionalmente, o senso comum é de que o imobilizado caracteriza-se por ser um bem concreto; no entanto, como há conceitos técnicos a considerar, nesta publicação pretende-se analisar este componente do Ativo Não Circulante e descrever suas características.

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Contextualização

O último grande divisor de águas na contabilidade brasileira remonta ao Projeto de Lei 3.741, apresentado em 8 de novembro de 2000, que propôs alterações na Lei das S.A. direcionadas à modernização da legislação societária e à convergência da contabilidade brasileira aos padrões internacionais. Esse processo ganhou forte impulso técnico com a Resolução CFC 1.055/2005, que instituiu o Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC), organismo criado para estudar, preparar e emitir pronunciamentos técnicos voltados à convergência da contabilidade brasileira aos padrões internacionais.

A atuação do CPC constituiu importante base técnica para a posterior modernização do marco legal societário, inicialmente com a promulgação da Lei 11.638/2007 e seu posterior aperfeiçoamento pela Lei 11.941/2009. Enquanto a primeira promoveu alterações na legislação societária direcionadas à convergência internacional, a segunda, além de introduzir novas modificações, instituiu o Regime Tributário de Transição (RTT), destinado a neutralizar, para fins tributários, os efeitos das alterações patrimoniais decorrentes do novo padrão contábil.

Imagem da bandeira brasileira inserida sobre a sigla IFRS, indicando que a contabilidade brasileira adotou as normas internacionais

É importante destacar que, embora a esmagadora maioria das empresas constituídas no Brasil não ostente a forma jurídica de Sociedade Anônima, a Lei 6.404/1976 não se restringe às companhias. Além das hipóteses em que sua aplicação é determinada pela legislação, entidades constituídas sob outras formas jurídicas, por opção própria, podem adotar suas disposições como legislação suplementar.

Desse modo, a evolução normativa introduzida por esse arcabouço legal e técnico ultrapassou os limites do mercado de capitais, modificando de modo intenso os conceitos contábeis aplicáveis à estrutura patrimonial das entidades em âmbito nacional.

Com a convergência internacional da contabilidade, a organização dos grupos de contas nas demonstrações contábeis — e, por conseguinte, nos planos de contas internos de cada empresa — foi substancialmente modificada, com destaque ao Ativo Imobilizado, objeto deste estudo.

Antes desse processo, a estrutura do Ativo era dividida entre Circulante, Realizável a Longo Prazo e Permanente, sendo este último subdividido em investimentos, ativo imobilizado e ativo diferido. Com o novo padrão, a classificação patrimonial passou a ser estruturada entre Ativo Circulante e Ativo Não Circulante, dividindo-se este em realizável a longo prazo, investimentos, imobilizado e intangível, enquanto o ativo diferido foi extinto da estrutura patrimonial.

O presente trabalho, o primeiro de uma série de estudos, é de cunho estritamente contábil e guiado pelo Sumário a seguir, que apresenta a análise progressiva do tema, desenvolvida com base na NBC TG 27 – Ativo Imobilizado. Foi escolhida essa NBC TG para balisar este estudo porque ela contempla um tratamento contábil mais abrangente por pertencer ao grupo de Normas Completas, voltado às empresas de grande porte; o ícone ao fim desse parágrafo direciona a outra publicação no site, sobre a aplicabilidade das Normas Simplificadas para PMEs.

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1 Ativo imobilizado e seu conceito contábil

O Ativo Imobilizado, sob a perspectiva contábil, compreende os bens materiais mantidos pela entidade para utilização no desenvolvimento de suas atividades, observando-se que sua classificação não depende do setor ou departamento em que o bem esteja alocado, mas da finalidade para a qual é mantido pela entidade.

De acordo com a NBC TG 27, para que um bem tangível seja classificado no Ativo Imobilizado, deve atender, essencialmente, a duas condições: (a) ser destinado à produção ou ao fornecimento de bens ou serviços, para aluguel a terceiros ou para fins administrativos; e (b) esperar-se que seja utilizado durante mais de um período.

Neste contexto, o termo “período” não deve ser classificado como ano civil, diretamente. A associação (ou confusão) pode surgir porque, no Brasil, as demonstrações contábeis e diversas obrigações fiscais anuais são tradicionalmente elaboradas tendo como referência o ano civil, com encerramento em 31 de dezembro. Porém, na terminologia contábil, conforme a definição apresentada no item 3.4 da NBC TG Estrutura Conceitual, “período” corresponde ao intervalo de tempo considerado para fins de relatório, o que permite concluir que, embora um período possa coincidir com o ano civil, esses dois termos não são sinônimos nem equivalentes.

Em síntese, período (contábil) e ano civil são distintos porque um período pode compreender um intervalo de tempo superior ou inferior a um ano, conforme expressamente admitido pela NBC TG 26, item 36, enquanto o encerramento das demonstrações contábeis em 31 de dezembro atende, entre outros aspectos, à sistemática prevista no art. 1.179 do Código Civil e às exigências de natureza fiscal.

Retomando o foco no Imobilizado, abaixo estão relacionados alguns bens que podem ser classificados nesse grupo, segundo o ramo de atividade:

  • Restaurante: jogos de mesas e cadeiras da área de consumo, fogões industriais, refrigeradores e freezers da cozinha, armários e prateleiras da despensa, além da mobília da sala de direção;
  • Loja de roupas: armários e prateleiras destinados à armazenagem dos produtos, balcões de atendimento aos clientes, mobília e computadores utilizados no setor administrativo e provadores destinados à clientela;
  • Escritório contábil: escrivaninhas, cadeiras, computadores, impressoras, instalações da sala de espera destinada à recepção de clientes, gaveteiros para arquivamento de documentos e estantes para armazenamento de pastas.

É importante observar, entretanto, que um mesmo tipo de bem pode ser classificado de maneira diferente conforme a finalidade para a qual é mantido pela entidade. Um bem destinado à comercialização, por exemplo, não recebe a mesma classificação contábil daquele adquirido para utilização nas atividades da própria entidade.

Um exemplo clássico é o de uma empresa que comercializa móveis para escritório. As escrivaninhas, mesas, armários e gaveteiros destinados à venda são classificados no Ativo Circulante, no grupo Estoques, pois representam mercadorias destinadas à comercialização. Já a mobília e os equipamentos eletrônicos utilizados pela direção e pelo setor comercial, embora também sejam móveis e equipamentos de escritório, são classificados no Ativo Não Circulante, no grupo Ativo Imobilizado, pois são mantidos para utilização nas atividades da própria empresa.

Por sua vez, o escritório contábil que adquirir equipamentos na loja anterior, os classificará no ativo imobilizado porque serão utilizados na prestação de seus serviços, uma vez que esses bens não são destinados à comercialização, mas à continuidade de suas atividades.

Estabelecidas as características do Imobilizado, a seguir será explorada sua classificação e respectiva formação de valor.

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2 Reconhecimento e atribuição de custo ao Ativo Imobilizado

A definição técnica de reconhecimento, prevista em várias normas contábeis, tem o sentido de contabilmente classificar um fato, incorporando-o ao plano de contas, desde que ele, segundo a essência, atenda às características de Ativo, Passivo, Receita ou Despesa e, ao mesmo tempo, satisfaça os critérios de reconhecimento aplicáveis, observados os fundamentos previstos nas regras aplicáveis.

Neste contexto, reconhecer um bem do Ativo Imobilizado consiste em, por intermédio de um lançamento contábil, registrá-lo em conta pertencente ao respectivo grupo do Imobilizado, integrante do Ativo Não Circulante, de modo que os saldos dessas contas, em oportunidades específicas, servirão de referência para a elaboração das demonstrações contábeis necessárias.

Na premissa de que determinados registros contábeis são orientados por normas específicas, conforme comentado desde o início do estudo, o reconhecimento contábil de um bem do Ativo Imobilizado é disciplinado pela NBC TG 27, que, a partir de seu item 7, reitera a expectativa de utilização do bem por mais de um período e estabelece que seu custo deve ser reconhecido como ativo se, e apenas se, for provável que futuros benefícios econômicos associados ao item fluirão para a entidade e o custo puder ser mensurado confiavelmente.

Entre as situações abrangidas por esses critérios, encontram-se determinadas peças de reposição. Quando esses itens forem destinados exclusivamente a determinado bem do Ativo Imobilizado, poderão ser classificados como imobilizado, ainda que permaneçam separados do bem até sua instalação. Em sentido diverso, peças de uso genérico, como pneus que possam ser utilizados indistintamente em qualquer veículo de uma frota, não atendem a essa condição e não serão classificadas no Imobilizado.

Atendidos esses critérios, passa-se à análise da formação do custo do objeto, com base no item 15 da Norma, onde está estabelecido que o bem, classificado para registro no Ativo Imobilizado, deve ser mensurado pelo seu custo. Em continuidade, os itens subsequentes especificam os dispêndios que integram essa mensuração, compreendendo os que se relacionarem com sua obtenção, transporte, instalação no local adequado e, ao fim, sua colocação em condições de funcionamento, conforme previsto.

2.1 Reconhecimento, titularidade jurídica e custos

A classificação contábil de um bem no Ativo Imobilizado não se vincula, necessariamente, à titularidade jurídica formal do bem. Na disciplina anterior à convergência das normas contábeis brasileiras aos padrões internacionais, a redação original do art. 179, IV, da Lei 6.404/1976, definia a classificação no Ativo Imobilizado apenas dos direitos que tivessem por objeto bens corpóreos destinados à manutenção das atividades da companhia ou da empresa, ou exercidos com essa finalidade, de modo que, sob esse tratamento, depreende-se que a titularidade jurídica — ou propriedade — constituía requisito essencial para o reconhecimento contábil desses direitos.

Esse critério foi alterado pela Lei 11.638/2007, que estendeu seu alcance aos direitos decorrentes de operações que transfiram à companhia os benefícios, riscos e controle dos bens, assim permitindo o reconhecimento contábil de determinados bens, mesmo que sua titularidade jurídica não estivesse formalmente atribuída à entidade que os reconhecesse.

Essa distinção pode ser observada, por exemplo, na aquisição de algum veículo ou máquina mediante financiamento com alienação fiduciária. Nessa situação, embora a instituição financeira mantenha a titularidade jurídica do bem como garantia da operação até a quitação da obrigação, ele poderá ser reconhecido no Ativo Imobilizado da entidade que o utiliza, desde que atendidos os critérios contábeis aplicáveis ao reconhecimento do ativo.

Superada a questão da titularidade e estando preenchidos os requisitos para o reconhecimento do bem como Ativo Imobilizado, o processo contábil se direciona à formação do valor pelo qual o produto será registrado. Vale observar que, embora interligados, reconhecimento e mensuração apresentam focos diferentes: um define critérios para a incorporação do bem ao patrimônio da entidade, enquanto o outro disciplina a composição do valor pelo qual essa incorporação será registrada, pois pode envolver gastos acessórios que podem ou não ser agregados.

Atenção especial precisa ser direcionada às aquisições por financiamento porque, na formação do valor histórico contábil, não significa que todos os pagamentos envolvidos na operação devam automaticamente integrar o custo. Assim, na aquisição a prazo, o custo do item corresponderá ao seu preço à vista na data do reconhecimento, enquanto a diferença entre esse valor e o total dos pagamentos — influenciados pelos juros periódicos — deverá ser reconhecida como despesa com juros durante o período de financiamento, ressalvadas as situações em que a capitalização de custos de empréstimos seja aplicável, segundo a NBC TG 20.

2.2 Custo de bem adquirido pronto

Pelo menos na área contábil, um custo se refere a todos os recursos financeiros, ou outros de equivalência monetária, que são empregados na aquisição de algo.

Sob essa ótica, quando a entidade opta por adquirir um ativo imobilizado já disponível no mercado, a mensuração de seu custo não se limitará ao informado no documento fiscal, pois a formação do valor compreende, além dos gastos inerentes à própria aquisição, aqueles outros necessários, como impostos e taxas adicionais, transporte ou preparação do ambiente, de modo que o local se encontre nas condições necessárias para sua instalação, permitindo que o bem se torne operacional e colabore, quando em atividade, na geração de benefícios econômicos por mais de um período.

Nessa situação, os custos evidentes e as despesas correlatas anteriormente mencionados deverão ser analisados quanto à sua natureza e à possibilidade de integrarem o custo do ativo, ressalvados os tributos incidentes sobre a aquisição, estejam embutidos no preço ou não: se não forem recuperáveis, integrarão o custo, enquanto os tributos recuperáveis por meio de créditos fiscais não o integrarão, conforme os critérios previstos na NBC TG 27.

A aplicação desses critérios pode ser observada em situações corriqueiras de aquisição de bens, conforme demonstram os exemplos elementares a seguir:

• Frigobar adquirido para a sala de reuniões

Se uma entidade adquire um frigobar para utilização em sua sala de reuniões e o fornecedor não inclui o frete no preço do produto, o valor pago pelo transporte, por estar diretamente relacionado à aquisição e à entrega do bem no local em que será utilizado, compõe o custo do ativo.

• Condicionador de ar adquirido com necessidade de adequação e instalação

Na aquisição de um condicionador de ar que, para sua utilização, exige a adaptação da rede elétrica e a instalação do equipamento, os gastos com a contratação de eletricista para a adequação necessária e de técnico para sua instalação podem compor o custo do ativo, desde que diretamente atribuíveis à sua colocação nas condições necessárias ao uso.

• Veículo novo

Na aquisição de um veículo zero quilômetro, além do preço de compra, ocorrem gastos indispensáveis para a sua regularização e colocação em condições legais de utilização. Dessa forma, as taxas de emplacamento inicial, bem como eventuais honorários de despachante diretamente atribuíveis a esses procedimentos de regularização, podem compor o custo do veículo, por serem sacrifícios financeiros incorridos especificamente para colocar o bem em sua condição legal de uso.

Ainda no processo de primeiro registro, há outros aspectos a considerar: a taxa de licenciamento inicial e o IPVA. Embora seus recolhimentos sejam necessários para que o veículo possa circular, eles possuem natureza estritamente periódica e temporal e, justamente por essa característica, seus valores não integrarão o custo histórico do veículo porque devem ser apropriados mensalmente pelo regime de competência.

• Veículo usado

Na aquisição de um veículo usado, além do próprio valor pago, podem ocorrer gastos relacionados à transferência da propriedade e à sua regularização em nome da adquirente, como taxa de transferência, vistoria, eventual substituição da placa e serviços do despachante de trânsito. Esses gastos podem compor o custo do veículo, por se referirem à transação envolvendo a aquisição, a transferência e a colocação do bem em condição regular de utilização.

Nesse cenário, se o veículo for adquirido com o IPVA do exercício e o licenciamento anual já quitados pelo proprietário anterior, o imposto não constituirá, para a adquirente, transferência da despesa para seu aproveitamento contábil, pois o desembolso foi realizado anteriormente por terceiro.

Embora o imposto esteja vinculado ao veículo adquirido usado, a adquirente não auferirá algum crédito correspondente ao período eventualmente ainda não transcorrido, conforme explicado anteriormente. Dessa forma, só poderá ocorrer situação diferente se, na negociação, uma das partes ressarcir à outra o valor correspondente à parcela relativa ao período anual remanescente.

Os exemplos apresentados demonstraram que, na aquisição de um bem disponível para entrega e uso dentro de prazo relativamente curto, a formação do custo contábil demanda análise criteriosa da natureza de cada dispêndio relacionado à operação. Por outro lado, esse tipo de análise se torna ainda mais relevante quando sua obtenção depender de produção (ou construção) para entrega futura, situação que envolve diversos processos e sucessivos gastos realizados pela entidade, de modo que a disponibilização do ativo para uso dependa da conclusão dessas etapas. Essa situação será examinada no subtópico seguinte, dedicado à imobilização em andamento.

2.3 Custo de bem em construção ou em produção

A apuração do custo contábil de um bem enquadrado como imobilização em andamento segue, em essência, os mesmos critérios aplicáveis à aquisição de um bem já pronto. A diferença está no fato de que, enquanto o bem adquirido pronto tem seu custo determinado a partir de uma operação produtiva já concluída, o bem em construção ou em produção tem seu custo formado progressivamente, à medida que se desenvolvem as etapas necessárias à sua obtenção e à sua colocação nas condições necessárias para o uso.

De acordo com o tipo, como esse processo pode se estender por mais de um período contábil, usualmente é firmado um contrato entre as partes e não é raro que o contratante pague algum sinal ou parcelas intermediárias, que, enquanto não houver a correspondente prestação pelo contratado, representam direitos a realizar. Enquanto isso, na área contábil é controlada a formação do custo do bem, mediante o reconhecimento dos gastos correspondentes às etapas efetivamente executadas, com a consequente compensação dos adiantamentos, quando aplicável. Portanto, segundo as práticas contábeis aplicáveis, os valores que compõem o custo do bem permanecerão classificados como imobilização em andamento até que o ativo esteja disponível para uso, momento em que o saldo acumulado será transferido para a conta correspondente à sua classificação definitiva.

A NBC TG 27 não apresenta orientação específica para a formação do custo de um bem cuja construção ou produção foi realizada por encomenda (ou contratação) externa. Há referência a bem desta natureza no item 22, que trata daqueles construídos pela própria empresa, cujo custo seria o mesmo que o da produção de ativos idênticos destinados à venda, obviamente sem margem de lucro. Por decorrência, como a norma determina que, para estes, sejam observados os mesmos princípios aplicáveis aos ativos adquiridos, compreende-se que a aquisição de bens não prontos, cuja disponibilização ocorra em prazo relativamente longo mediante a contratação de terceiros, deverá observar o princípio da competência, de modo a conjugar os pagamentos realizados com a materialização progressiva do bem, como demonstram as ilustrações a seguir:

a) Empresa pesqueira que aciona um estaleiro para a construção de uma embarcação adaptada para suas atividades extrativas;

b) Agroindústria que encomenda vários drones que serão utilizados na pulverização de suas culturas;

c) Indústria de móveis que encomenda da China uma máquina apropriada para cortes personalizados de placas de madeira;

d) Empresa de turismo que compra o chassi de um ônibus rodoviário e encomenda uma carroceria compatível com o conforto de sua clientela em viagens longas;

e) Transportadora que contrata uma empreiteira para a construção de um galpão de entreposto.

Embora as situações apresentadas sejam consideravelmente distintas quanto à natureza, às dimensões, ao prazo de finalização e à forma de contratação, possuem um ponto comum: o ativo somente será contabilmente reconhecido em sua plenitude após o cumprimento de todas as etapas necessárias para disponibilizá-lo a seu fim. Entretanto, no decorrer desse período, os valores reconhecidos como integrantes do custo serão alocados à conta específica de imobilização em andamento, independentemente de a entidade já ter efetuado pagamentos ao contratado.

A expressão imobilização em andamento é utilizada neste estudo de forma genérica para identificar bens do Ativo Imobilizado cujo processo de obtenção ainda não foi concluído. Conforme a situação, pode abranger construção em andamento, máquina em produção, equipamento sob encomenda, importação em curso ou outras situações semelhantes, inclusive com controle segregado por bem, projeto ou centro de custos.

Desta feita, considerando que o texto expôs detalhadamente o processo contábil de formação do custo de um ativo imobilizado em andamento, seria desnecessário apresentar uma bateria de lançamentos a título de exemplo, pois ela seria apenas genérica e não necessariamente aplicável às diferentes situações que possam ocorrer. O próximo tópico dedica-se a explorar a manutenção e os reparos dos bens em operação e seus reflexos sobre a longevidade, aspectos que eventualmente poderão demandar ajustes em seus saldos.

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3 Manutenção e desgaste do imobilizado

Uma vez reconhecido o ativo imobilizado e atribuído o seu custo, o bem passa a ser utilizado para a finalidade a que se destina. Consecutivamente, em decorrência do uso regular ao longo do tempo, tecnicamente dividido em períodos, sua utilização demandará manutenção preventiva ou reparos, que representarão gastos destinados à preservação de suas condições de funcionamento. Paralelamente, com o passar dos períodos, ocorrerá o desgaste gradual de sua capacidade operacional, geralmente pela obsolescência ou pelo esgotamento de sua vida útil na geração de benefícios econômicos.

Embora decorram da utilização do mesmo ativo, esses aspectos possuem naturezas distintas e, pelo mesmo motivo, também recebem tratamentos contábeis diferenciados.

Enquanto os gastos eventuais direcionados à manutenção e aos reparos podem ser reconhecidos diretamente no resultado como custos ou despesas, em determinadas situações — dependendo da intervenção — os desembolsos são agregados ao valor contábil do bem; por sua vez, o desgaste sistemático da capacidade produtiva do equipamento ao longo de sua vida útil, no encerramento de cada período, é reconhecido por meio de depreciação, amortização ou exaustão, segundo a natureza do bem.

A análise técnica destes eventos é apresentada nos itens seguintes; inicialmente, são expostas as particularidades de cada um e, por fim, a conceituação contábil do reconhecimento do desgaste natural e esperado dos bens.

3.1 Manutenção e reparos

Mesmo que algum bem do Ativo Imobilizado tenha durabilidade relativamente longa, no decorrer dos períodos de operação é necessário zelar pelo seu bom estado de uso, não necessariamente para "prolongar" a própria vida útil, mas para preservar a respectiva operacionalidade durante o prazo previsto de utilização. Nesse contexto, entram em ação os procedimentos de manutenção e reparos.

Na área normativa, essas intervenções de caráter regular ou reparativo são abordadas no tópico de "Custos subsequentes" da NBC TG 27, que, em seus itens 12 a 14, apresenta as regras sobre o tratamento dos gastos dessa natureza.

De modo geral, os gastos com manutenção e reparos são reconhecidos nas contas de resultado, como custos ou despesas; no entanto, se em função da substituição de parte(s) o período de vida útil do bem for dilatado, aplica-se o tratamento previsto no item 70 da mesma norma, que versa a respeito de baixa do ativo e trata de baixa parcial de componentes do Ativo Imobilizado. Nesta situação, é baixado o valor contábil da parte substituída e, sucessivamente, incorporado o novo custo ao saldo do ativo.

No cotidiano, os termos manutenção e reparo podem até ser compreendidos como equivalentes, no entanto, são expressões tratadas de forma diferente na área contábil. A manutenção — geralmente regular — compreende procedimentos destinados a preservar as condições de funcionamento do bem, mediante intervenções preventivas ou corretivas, como desmonte e limpeza, calibração e ajustes, lubrificação, trocas de correias ou polias e substituição de outras partes que se desgastam naturalmente pelo tempo ou pelo uso contínuo. O reparo, por sua vez, envolve a intervenção destinada a corrigir falhas, danos ou defeitos que comprometam o funcionamento do bem.

Por extensão, na área profissional não há um roteiro prático que disponha que todas as manutenções de qualquer ordem sejam livremente classificadas como despesas, enquanto certas adaptações, reformas ou reparos, específicos ou não, obrigatoriamente sejam incorporados ao valor contábil do bem. Isso decorre, em parte, da própria natureza dos bens do ativo imobilizado, que são constituídos por um conjunto de componentes sujeitos a diferentes níveis e formas de desgaste, nem sempre passíveis de controle individualizado quanto aos respectivos custos.

Portanto, mesmo que seja realizada uma intervenção em determinada parte, com substituição ou não, a renovação ou melhoria desse componente não significa, necessariamente, que sua nova condição estenderá a vida útil do conjunto funcional representado pelo bem, podendo apenas colaborar com a vida útil remanescente dele.

Nesse cenário, é necessário analisar criteriosamente a natureza da intervenção realizada e seus efeitos sobre o bem para, então, tomar uma decisão coerente quanto ao tratamento contábil do fato.

3.2 Depreciação, amortização e exaustão

A forma como anteriormente foi utilizada a expressão vida útil pode ter levado a relacioná-la somente com consertos, reparos ou reformas; apesar de imprescindíveis, estas intervenções contribuem apenas para a preservação da operacionalidade dos bens no decorrer do próprio período de utilização, ressaltando que o "prazo de vida" — operacional e produtivo — de cada um deles é estimado quando de sua aquisição. No entanto, mesmo que a manutenção regular seja sistematicamente empregada, tais bens continuam sujeitos à ação simultânea de fatores implacáveis: a ação do tempo e outras circunstâncias, como ociosidade ou obsolescência (técnica ou comercial), que inevitavelmente refletirão no seu valor de mercado e/ou na sua capacidade produtiva, podendo tornar a manutenção inviável, por passar a ser excessivamente onerosa.

Na área contábil, esse processo de desgaste natural é denominado depreciação, amortização ou exaustão e, como nos meios profissional ou acadêmico essas três palavras são utilizadas ou mencionadas conjuntamente, pode ser passada a impressão de que esses termos sejam equivalentes. Essa percepção não procede porque, apesar de em comum registrarem a desvalorização de cada item em uma conta redutora, cada uma se aplica a bens de naturezas distintas, conforme a seguir:

• Amortização: incide sobre bens imateriais classificados no Ativo Intangível, como direitos autorais, patentes, licenças de uso e naming rights, conforme as disposições da NBC TG 04 - Ativo Intangível, para registrar o consumo dos direitos representados pelo bem imaterial.

• Exaustão: corresponde ao registro da diminuição da disponibilidade dos recursos existentes em jazidas ou áreas, decorrente da extração de recursos minerais (incluindo fósseis, como petróleo e gás natural) ou florestais, conforme previsto no art. 183, § 2º, “c”, da Lei 6.404/1976; por sua vez, os bens corpóreos utilizados nas atividades de lavra ou extração são depreciados como de praxe, inclusive os empregados em atividades agrícolas, conforme o previsto na NBC TG 27. Utilizou-se a referência à legislação societária porque, no âmbito das normas contábeis convergidas, a NBC TG 43 registra que o CPC 34 - Exploração e Avaliação de Recursos Minerais não foi emitido por não ser de aplicação compulsória pelo IASB.

• Depreciação: é aplicada aos bens físicos, como máquinas, edificações e veículos, e, por constituir o objeto deste estudo, adiante será abordada em seus aspectos específicos, de acordo com as disposições da norma técnica que orienta esta análise.

Em sua essência, a depreciação do ativo imobilizado é um processo em que o valor de cada bem é rateado pelo período de sua vida útil prevista, de modo que o custo correspondente à sua utilização seja reconhecido gradualmente ao longo desse período e, segundo o item 62 da NBC TG 27, são aceitos três métodos para tanto: a depreciação linear, a de saldos decrescentes e a de unidades produzidas, cabendo à entidade adotar aquele que for coerente com seu perfil operacional e mantê-lo de forma consistente ao longo dos períodos. Ainda nos preceitos da norma, vale ressaltar que, embora ela reconheça três modalidades de depreciação, isso não significa que uma empresa deva adotar o mesmo método para depreciar indistintamente todos os seus ativos, devendo ser aplicado aquele que melhor reflita o padrão de consumo dos benefícios econômicos de cada.

Independentemente do método adotado, é definido na norma que a depreciação tem como base o valor depreciável, que é o valor contábil deduzido de seu valor residual, que representa o valor estimado que a entidade obteria com a alienação do bem, após a dedução dos custos inerentes a essa operação, caso ele já tivesse a idade e a condição esperadas para o fim de sua vida útil. Na sequência, serão apresentados exemplos destes modos de forma objetiva, para qualquer um deles com base em certo bem cujo custo de formação seja R$ 60 mil, tenha vida útil estimada em 6 anos e um valor residual correspondente a 10% do custo histórico.

I Depreciação linear

Considerando que a depreciação consiste na distribuição do valor depreciável do bem pelo período previsto de sua vida útil, a depreciação linear aplica esse princípio de maneira uniforme, com base nas próximas operações básicas e sucessivas.

a) Inicialmente, determina-se o valor residual (VR) e, em seguida, o valor depreciável (VD) do bem:

$$VR = 60.000 \times 10\% = \text{R\$ } 6.000,00$$

$$VD = 60.000 - 6.000 = \text{R\$ } 54.000,00$$

b) Dividindo-se o valor depreciável pelo período estimado de vida útil, obtém-se o valor da depreciação anual (DA):

$$DA = \frac{54.000}{6} = \text{R\$ } 9.000,00 \text{ anuais}$$

c) Alternativamente, visto que no cotidiano contábil é habitual expressar a taxa de depreciação anual em porcentagem, o item anterior pode ser substituído por:

$$DA = \dfrac{1}{6} \approx 0{,}166667 \therefore 16{,}6667\% \text{ a.a., pois } 54.000 \times 16{,}6667\% \approx \text{R\$ } 9.000,00$$

II Depreciação por saldos decrescentes

Segundo a NBC TG 27, o termo técnico realmente é método dos saldos decrescentes, porém, literalmente, há a impressão de que a redução será operada periódica e sistematicamente sobre o próprio custo histórico, diminuindo-o a cada cálculo de depreciação. Na realidade, o custo contábil original é mantido intacto, enquanto decrescente será o valor da quota de depreciação, que é calculado sobre um saldo intermediário — apurado à parte — pela dedução das depreciações acumuladas do valor contábil original.

A principal diferença deste método em relação ao linear visto anteriormente é que, aplicando-se a mesma taxa periódica de 16,6667% ao longo dos mesmos seis períodos, não será possível obter, pelo método dos saldos decrescentes, o valor residual estipulado à data do registro. O seguinte desenvolvimento matemático demonstra essa diferença:

n Valor
contábil
Saldo
intermediário
Alíquota Valor da
depreciação
Saldo após
depreciação
0 60.000,00 - - - 60.000,00
1 60.000,00 60.000,00 16,6667% 10.000,02 49.999,98
2 60.000,00 49.999,98 16,6667% 8.333,35 41.666,63
3 60.000,00 41.666,63 16,6667% 6.944,45 34.722,18
4 60.000,00 34.722,18 16,6667% 5.787,04 28.935,14
5 60.000,00 28.935,14 16,6667% 4.822,53 24.112,61
6 60.000,00 24.112,61 16,6667% 4.018,78 20.093,83

O saldo comporta-se desta forma porque a base de cálculo da depreciação diminui progressivamente e, sendo submetida a uma taxa própria da depreciação linear, matematicamente não é possível chegar a um saldo residual de R$ 6 mil. Considerando que a norma em análise apenas reconhece este tipo de depreciação, mas não contextualiza a situação, com base nos princípios de progressão geométrica e matemática financeira, os próximos cálculos demonstram uma forma de se estipular uma taxa periódica uniforme (i):

$$\text{Valor residual} = \text{Custo histórico} \times (1 - i)^{\text{períodos}}$$

Ao inserir os valores e realizar os cálculos com incógnita em i, obtém-se:

$$6.000 = 60.000 \times (1 - i)^6$$

$$\frac{6.000}{60.000} = (1 - i)^6$$

$$0,1 = (1 - i)^6$$

$$\sqrt[6]{0,1} = 1 - i$$

$$0,681292 = 1 - i$$

$$i = 1 - 0,681292$$

$$i = 0,318708 \therefore 31,8708\%$$

O processo demonstrado acima pode ser comprovado pela próxima tabela, que demonstra a evolução dos cálculos a cada período e, ao fim, aponta o valor residual:

n Valor
contábil
Saldo
intermediário
i Valor da
depreciação
Saldo após
depreciação
0 60.000,00 - - - 60.000,00
1 60.000,00 60.000,00 31,8708% 19.122,48 40.877,52
2 60.000,00 40.877,52 31,8708% 13.027,99 27.849,53
3 60.000,00 27.849,53 31,8708% 8.875,87 18.973,66
4 60.000,00 18.973,66 31,8708% 6.047,06 12.926,60
5 60.000,00 12.926,60 31,8708% 4.119,81 8.806,79
6 60.000,00 8.806,79 31,8708% 2.806,79 6.000,00

Observando-se os valores apurados, percebe-se que esse método concentra parcelas maiores de depreciação nos primeiros períodos de utilização do ativo e parcelas menores nos períodos subsequentes. Por essa razão, sua aplicação tende a ser mais adequada aos bens que apresentam maior potencial de geração de benefícios econômicos ou maior intensidade de utilização nos primeiros anos de vida útil.

III Depreciação por unidades produzidas

O método de depreciação por unidades produzidas difere substancialmente dos anteriores porque a distribuição do valor depreciável não se baseia no tempo de vida útil estimado, mas na capacidade produtiva do bem, independentemente do tempo transcorrido. Dessa forma, o cálculo não segue uma proporção simples, como no método linear, nem uma função exponencial, como no método dos saldos decrescentes, mas uma relação direta entre a produção efetiva e a capacidade produtiva estimada.

Utilizando as características da mesma máquina já exemplificada, admite-se, nesta hipótese, que sua capacidade produtiva estimada seja de 1 milhão de peças. Preservado o valor residual, o valor depreciável é distribuído proporcionalmente ao total de produção estimada, de modo que a depreciação correspondará ao volume produzido em cada período, conforme os cálculos a seguir:

$$VR = 60.000 \times 10\% = \text{R\$ } 6.000,00$$

$$VD = 60.000 - 6.000 = \text{R\$ } 54.000,00$$

Considerando o valor depreciável de R$ 54.000,00 para uma capacidade produtiva estimada de 1.000.000 de unidades, a quota de depreciação por unidade produzida é calculada por proporção simples:

$$\frac{54.000}{1.000.000} = \text{R\$ } 0,054$$

Assim, ao final de um período em que tenham sido produzidas 175.000 unidades, com uma multiplicação básica será obtido o valor da depreciação correspondente:

$$175.000 \times 0,054 = \text{R\$ } 9.450,00$$

Embora aparente ser relativamente simples, pois o cálculo da depreciação é diretamente proporcional à quantidade de unidades produzidas, esse método exige rigoroso controle da produção, uma vez que dados imprecisos comprometem o registro dos fatos de acordo com a realidade e, consequentemente, a confiabilidade das informações.

Além do controle da produção, é importante observar o limite da depreciação acumulada, pois o item 54 da NBC TG 27 estabelece que “O valor residual de um ativo pode aumentar. A despesa de depreciação será zero enquanto o valor residual subsequente for igual ou superior ao seu valor contábil”. Isso significa que, mantido o valor residual em R\$ 6.000,00, a depreciação deixa de ser reconhecida quando a depreciação acumulada atingir os R\$ 54.000,00 correspondentes ao valor depreciável do bem. A próxima tabela demonstra que estes dois controles são indispensáveis:

n Unidades
produzidas
Depreciação
por unidade
Depreciação
do período
Depreciação
acumulada
Excesso
de valor
Limite
disponível
0 - - - - 54.000,00
1 165.000 0,054 8.910,00 8.910,00 - 45.090,00
2 180.900 0,054 9.768,60 18.678,60 - 35.321,40
3 161.400 0,054 8.715,60 27.394,20 - 26.605,80
4 163.500 0,054 8.829,00 36.223,20 - 17.776,80
5 165.300 0,054 8.926,20 45.149,40 - 8.850,60
6 166.700 0,054 9.001,80 54.151,20 151,20 -

Mantendo o foco nesta metodologia de depreciação, agora relacionada a outros trechos da Norma em estudo, o item 55 determina que “a depreciação do ativo se inicia quando este está disponível para uso, ou seja, quando está no local e em condição de funcionamento na forma pretendida pela administração”; logo, uma interpretação literal da regra pode dar a impressão de que, na depreciação por unidades produzidas, algum tipo de depreciação deveria ser aplicado nos períodos sem produção, como em um recesso eventual. Neste caso, seria aplicada a depreciação linear porque, mesmo inoperante, o bem estaria sujeito à ação do tempo?

Essa ideia é inaplicável porque o mesmo item 55, em sua parte final, esclarece que "(...) de acordo com os métodos de depreciação pelo uso, a despesa de depreciação pode ser zero enquanto não houver produção". Além disso, a adoção de outro método durante uma interrupção temporária não encontra respaldo técnico, conforme os argumentos a seguir:

i) como a metodologia deve refletir a operação habitual da entidade, uma suspensão temporária da produção não altera, por si só, o padrão de consumo dos benefícios econômicos do ativo;

ii) a ausência de produção durante certo período, isoladamente, não seria suficiente para justificar a adoção temporária de um método de depreciação alternativo;

iii) a aplicação de métodos distintos exige justificativa compatível com o padrão de consumo dos benefícios econômicos do ativo, considerando que o item 62 determina a utilização consistente do método adotado entre os períodos, salvo quando houver alteração nesse padrão;

iv) de acordo com a tabela anterior, a sazonalidade da produção permite que as quantidades produzidas nos períodos subsequentes influenciem as respectivas quotas de depreciação, sem que seja necessário recorrer a outro método durante a interrupção.

Conforme comentado no último parágrafo antes do Sumário deste material, o estudo é direcionado exclusivamente aos conceitos contábeis de Ativo Imobilizado, envolvendo reconhecimento, manutenção, depreciação e baixa. Desse modo, não foram abordados os reflexos tributários do método de depreciação adotado, pois esse aspecto será examinado em outra publicação.

Além dos gastos com manutenção e do reconhecimento sistemático do desgaste, o tratamento contábil do ativo imobilizado envolve situações em que se torna necessária a retirada do bem, integral ou parcialmente, dos registros contábeis. Esse procedimento, denominado baixa do imobilizado, ocorre em circunstâncias específicas, que serão examinadas a seguir.

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4 Baixa do imobilizado

No ambiente contábil, é comum classificar o desreconhecimento de um bem do Ativo Imobilizado apenas como baixa. Essa expressão, porém, pode transmitir a ideia de que se trata de uma ocorrência genérica, sujeita a tratamento padronizado, independentemente do tipo do fato. O procedimento técnico a ser aplicado no processo deve ser criterioso porque, além de se relacionar com a depreciação e a estimativa da vida útil dos bens, a baixa pode ocorrer por diversos motivos, cuja individualização requer tratamentos contábeis específicos.

Em continuidade ao raciocínio anterior e com base na Norma Técnica em análise, percebe-se uma relação direta entre os itens 55 e 67, sendo o primeiro dedicado à depreciação e o segundo à baixa.

Antes de abordar o de nº 55, é importante observar que, conforme exposto na parte introdutória, este estudo é norteado pela NBC TG 27, pertencente ao grupo de Normas Completas, próprias das empresas de grande porte, por ser a regra mais abrangente de todas, permitindo uma análise técnica mais rica em detalhes de diversas situações.

No entanto, conforme levantamento realizado a partir dos dados abertos da Receita Federal do Brasil, considerando o faturamento e os limites de cada regime tributário em relação à quantidade de CNPJs ativos, verificou-se que aproximadamente 97% das inscrições não se enquadram no status de "empresa de grande porte", o que as força a adotar as Normas Simplificadas, representadas pelas NBC TG 1000, 1001 e 1002, cabíveis às organizações de pequeno e médio porte e às microentidades. Portanto, essas normas não preveem a transferência de um bem do Ativo Imobilizado para o grupo de Estoques nas mesmas condições previstas na NBC TG 27, cujo item 55 remete à NBC TG 31 para a classificação de ativos mantidos para venda.

Estabelecidos o alcance da análise do item citado anteriormente e suas restrições, nele é determinado que a depreciação possui caráter contínuo, inclusive nos períodos em que o bem permanece temporariamente sem produzir, cessando quando ele é classificado como mantido para venda (situação mais comum nas empresas de grande porte), quando é baixado ou quando seu valor depreciável tiver sido integralmente consumido, o que ocorrer primeiro. Por seu turno, o item 67 estabelece as hipóteses de baixa, que pode decorrer da alienação do bem ou da inexistência de expectativas de futuros benefícios econômicos associados ao seu uso ou à sua alienação.

Na mesma ordem proposta pelo trecho final do item que regula a baixa, a alienação é uma operação que dispensa explicações detalhadas, cabendo aprofundar o trecho referente ao fim das expectativas de futuros benefícios econômicos gerados pela operação do bem classificado como Ativo Imobilizado. Isso significa que, por algum motivo, o elemento perdeu suas condições de uso, como em decorrência de avaria irreparável ou obsolescência tecnológica, ou foi retirado da empresa por motivos alheios à sua vontade, como furto ou apreensão judicial, gerando a necessidade de desreconhecimento contábil.

Portanto, embora os motivos da baixa possam ser diversificados, o tratamento contábil deve seguir o mesmo roteiro: a depreciação acumulada é deduzida do custo histórico, apurando-se o valor contábil do bem para verificar se houve ganho ou perda de capital, conforme o item 71: “os ganhos ou perdas decorrentes da baixa de um item do ativo imobilizado devem ser determinados pela diferença entre o valor líquido da alienação, se houver, e o valor contábil do item”.

Nesse contexto, quando ocorre uma venda, o resultado apurado é reconhecido nas Contas de Resultado como ganho ou perda de capital, enquanto, nas demais hipóteses, o valor contábil é reconhecido diretamente como perda.

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Conclusão

Embora as expressões ativo imobilizado e depreciação sejam tradicionais e antigas no ambiente contábil, o desenvolvimento deste estudo demonstrou que os conceitos envolvidos em seu tratamento são mais amplos do que uma compreensão simplista pode sugerir. A análise exigiu pesquisa, interpretação e reflexão crítica para questionar concepções generalistas sedimentadas na prática profissional e oferecer contribuições ao conhecimento contábil aplicável.

Uma mudança fundamental na contabilidade brasileira decorreu da convergência aos padrões internacionais, que contribuiu para desvincular os critérios contábeis das exigências fiscais e fortalecer a autonomia da contabilidade e, com a prevalência da essência econômica sobre a forma jurídica, tornou-se possível produzir informações confiáveis sem subordinar os registros contábeis aos critérios tributários. Justamente por esse motivo, este estudo aborda exclusivamente o tratamento contábil, enquanto os reflexos tributários e os eventuais conflitos entre esses critérios serão tratados em publicação posterior desta série.

Em uma leitura reflexiva do conteúdo apresentado, considerando que os bens do Ativo Imobilizado são indispensáveis à manutenção das atividades e ao desenvolvimento dos negócios, inclusive nas entidades sem fins lucrativos, percebe-se a importância de o profissional contábil possuir as competências necessárias para gerar informações relevantes à administração, observando as normas técnicas e legais aplicáveis, apesar de o controle contábil do imobilizado ocupar uma posição secundária nos afazeres profissionais.

Por regra, os bens físicos utilizados nas atividades da entidade, desde que a previsão de sua vida útil seja superior a um período contábil, devem ser classificados no Ativo Imobilizado, observados os critérios de reconhecimento aplicáveis, inclusive a formação do custo, que compreende os dispêndios necessários e relacionados com a aquisição ou produção, bem como com a instalação e disponibilização para funcionamento. Por sua vez, segundo o padrão de consumo dos benefícios econômicos proporcionados por cada bem, apura-se a depreciação, que representa a alocação sistemática do valor depreciável ao longo da vida útil estimada.

Apesar de a literatura contábil apresentar um elevado número de metodologias de depreciação, a NBC TG 27 reconhece três métodos: o linear, o dos saldos decrescentes e o das unidades produzidas. Porém, o fato de serem tecnicamente aceitos três métodos distintos não significa que a entidade deva adotar um deles como padrão para todo o seu Ativo Imobilizado, por tempo indeterminado e indistintamente. Como a metodologia de depreciação deve refletir o padrão de consumo dos benefícios econômicos de cada bem, a entidade deverá aplicar a cada um o método compatível com sua utilização.

Além da depreciação, cujo reconhecimento pode ocorrer mesmo quando determinado bem não está em operação, o tratamento contábil do Ativo Imobilizado envolve os gastos com sua manutenção, necessários à conservação das condições operacionais. Embora essas intervenções contribuam para preservar as condições de uso ao longo da vida útil estimada, raramente serão capazes de prolongá-la, pois o reconhecimento dos gastos depende de sua natureza e dos efeitos efetivamente produzidos no bem.

A manutenção dos bens requer análise criteriosa porque os gastos dessa natureza representam custos ou despesas, pois determinadas intervenções, especialmente as de substituição de partes significativas, podem exigir a baixa contábil do componente substituído e o reconhecimento do novo, com possíveis reflexos na vida útil estimada do conjunto. Desse modo, a análise da natureza dos gastos e de seus efeitos no bem é fundamental para distinguir a manutenção rotineira das intervenções que atendem aos critérios de reconhecimento de um ativo.

Dentre as Normas Técnicas disponibilizadas pelo CFC, encontram-se as completas e as simplificadas, tendo sido este estudo desenvolvido com base na NBC TG 27, integrante do grupo das completas, predominantemente direcionadas às empresas de grande porte. Logo, por sua natureza, essa norma apresenta conteúdo denso e abrangente, que permite explorar diversos aspectos de sua aplicação; no entanto, pode-se questionar a escolha de uma norma completa, pois aproximadamente 97% das empresas nacionais estão sujeitas às normas simplificadas.

Justifica-se essa escolha editorial porque, apesar de não ser admitida a aplicação de regras híbridas (conceitos das simplificadas mesclados com os das completas), a exploração técnica de uma norma mais robusta possibilita a análise detalhada de aspectos que não recebem o mesmo grau de explicitação nas normas simplificadas e, em casos excepcionais, os conceitos expostos na norma completa podem auxiliar na interpretação de situações para as quais as normas aplicáveis não ofereçam orientação específica, respeitados os critérios pertinentes.

Após a descrição do ciclo de vida do bem, abrangendo as etapas de implantação, manutenção e depreciação, o último estágio corresponde à baixa do saldo contábil, isto é, ao desreconhecimento do valor contábil, sendo “baixa” uma expressão empregada genericamente para designar a desvinculação patrimonial da propriedade, que se dá por diversos motivos e cujas peculiaridades precisam ser analisadas para que se aplique um tratamento contábil coerente.

Esses motivos abrangem desde a venda do bem em qualquer momento até situações não deliberadas pela entidade, como danos irreparáveis, furtos ou decisões do Poder Judiciário; independentemente da causa, a baixa exige a apuração do valor contábil do bem, correspondente ao custo histórico deduzido das depreciações acumuladas, para então reconhecer o ganho ou a perda de capital, cujo valor será registrado nas Contas de Resultado.

Este estudo demonstrou que o Ativo Imobilizado, embora aparentemente simples, envolve conceitos e critérios que exigem do profissional contábil conhecimento técnico e atenção às normas aplicáveis. Nesse contexto, o domínio dessas regras é fundamental para que o tratamento contábil dos bens represente adequadamente sua realidade econômica, contribuindo para a qualidade das informações, para o exercício responsável da profissão e para a valorização das prerrogativas profissionais do contador.

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18/08/2026

Ativo imobilizado: tudo deve ser imobilizado?

O Ativo Imobilizado é uma das partes vitais de qualquer entidade, com ou sem fins lucrativos, porque reúne bens utilizados pela organização no desenvolvimento das atividades a que se propõe.

Em termos genéricos, o Imobilizado pode reunir veículos, móveis, utensílios, equipamentos, máquinas, construções e outros bens destinados à utilização nas atividades da entidade por mais de um período. Mas tudo deve ser imobilizado? Há exceções? Qual valor deve ser considerado?

Escrivaninha de escritório contábil com máquina de somar mecânica, fichas patrimoniais e documentos contábeis

Embora a concepção de Imobilizado pareça relativamente simples, ainda pairam dúvidas a respeito da vida útil dos bens, da apuração da depreciação e, principalmente, do embate entre a depreciação efetiva e a depreciação prevista em tabela fiscal.

A contabilidade seria obrigada a depreciar seu imobilizado estritamente de acordo com os índices previstos pelo Fisco?

E, mais adiante, quando o bem for alienado e houver ganho de capital, ele será tributado? Qual depreciação deve ser utilizada para determinar esse ganho: a contábil ou a fiscal?

Este é o marco inaugural de uma série de estudos envolvendo o tratamento contábil do ativo imobilizado e da depreciação; a tributação do ganho de capital na alienação de bens do imobilizado por empresas optantes pelo Simples Nacional ou tributadas pelo Lucro Presumido; o mesmo cenário nas empresas tributadas pelo Lucro Real, incluindo o tratamento das diferenças entre as taxas de depreciação adotadas pela contabilidade e aquelas admitidas pelo Fisco; e, finalmente, o tratamento tributário desse mesmo fato nas entidades do terceiro setor, imunes ou isentas.


10/07/2026

IRPF 2026: Rendimentos Recebidos Acumuladamente (RRA) - tributação exclusiva na fonte ou ajuste anual?

Briefing: Análise do tratamento tributário dos Rendimentos Recebidos Acumuladamente (RRA), previsto no art. 12 da Lei nº 7.713/1988 e suas alterações posteriores, atualmente compilado no Decreto nº 9.580/2018 (RIR/2018) e disciplinado pela Instrução Normativa RFB nº 1.500/2014. O estudo examina a faculdade conferida ao contribuinte de optar pelo regime de tributação aplicável a esses rendimentos — seja pela tributação exclusiva na fonte, seja por sua inclusão entre os demais rendimentos tributáveis do ano-calendário —, com o propósito de avaliar, em um estudo de caso, a alternativa mais adequada para a apuração do imposto na Declaração de Ajuste Anual do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física.

Contextualização

De acordo com a legislação tributária interna, o imposto de renda incidente sobre os rendimentos do trabalho da pessoa física é apurado pelo regime de caixa, um sistema no qual o tributo é descontado, pela própria fonte pagadora, no momento do crédito ou pagamento dos recursos, para que posteriormente esta realize o recolhimento da quantia aos cofres públicos.

Nas hipóteses de trabalho contínuo, em que a remuneração esteja sujeita ao IRRF, é natural que os descontos ocorram ao longo do ano-calendário, uma vez que esses valores são consolidados na Declaração de Ajuste Anual, e justamente a partir dessa consolidação, apura-se o resultado tributário definitivo.

É neste ajuste anual que se apura o saldo do tributo do contribuinte: imposto complementar a pagar, imposto zerado ou valor a ser restituído; no entanto, um aspecto que foge do atual roteiro ordinário é o tratamento tributário dos Rendimentos Recebidos Acumuladamente (RRA), especificamente quanto à decisão de mantê-los sob tributação exclusiva na fonte ou somá-los aos rendimentos tributáveis do ano e, consequentemente, aproveitar o IRRF sobre este evento.

Em passado recente, como o imposto sempre foi apurado pelo regime de caixa, o recebimento de valores referentes a anos passados — com frequência decorrentes de ações judiciais — era tributado como se o rendimento fosse de competência exclusiva do ano de liquidação do direito. A consequência natural é que esse mecanismo conduzia, invariavelmente, à aplicação das alíquotas mais elevadas da tabela progressiva, resultando em significativa onerosidade tributária para o beneficiário e ainda sob a forma de tributação exclusiva na fonte.

Em resposta a essas distorções, a legislação específica foi editada, introduzindo um método de apuração que passou a considerar o intervalo temporal entre a formação do direito e a efetiva percepção do rendimento. Sob essa nova diretriz, a carga tributária aplicada aos RRA tornou-se mais equânime, facultando-se, ainda, ao contribuinte a opção entre a tributação exclusiva na fonte e a inclusão desses rendimentos no ajuste anual, conforme as circunstâncias de cada situação.

É com o objetivo de analisar esses dois momentos — o tratamento anterior e o modelo vigente — que o presente estudo foi desenvolvido, para auxiliar o responsável pelo preenchimento da Declaração de Ajuste Anual, com segurança fiscal, adotar a opção tributária mais adequada.

1 Evolução do tratamento tributário dos rendimentos recebidos acumuladamente (RRA)

Nas relações trabalhistas habituais, quando se constata alguma falha no cálculo de salários ou na apuração de determinadas diferenças remuneratórias, a questão costuma ser solucionada internamente, diretamente entre as partes, com relativa rapidez e, em regra, dentro do próprio ano‑calendário em que a divergência tenha sido detectada — por qualquer das partes — e prontamente regularizada.

De modo distinto da relação trabalhista contínua, a percepção dos RRA decorre de situações em que a formação do direito e a liberação dos valores dependem do concurso do Poder Judiciário, tanto nas demandas de trabalhadores da iniciativa privada quanto nas controvérsias suscitadas no âmbito dos servidores públicos, abrangendo desde verbas trabalhistas até a revisão de proventos, em ações individuais ou coletivas patrocinadas por entidades sindicais.

É nesse cenário de ações judiciais, especialmente as de natureza trabalhista, que se insere o propósito do presente estudo técnico, de sorte que tais demandas — quando julgadas procedentes em favor do empregado — dão origem, em regra, a valores de natureza tributável, ao passo que, em ações de natureza civil, é comum que os valores reconhecidos assumam a forma de reparação de danos ou indenizações, que à luz da legislação tributária, são classificadas como verbas isentas.

No entanto, as ações trabalhistas raramente são liquidadas no mesmo ano em que são propostas; conforme estatísticas compiladas pelo Tribunal Superior do Trabalho desde 2015, ações dessa natureza são, em média, liquidadas entre dois e três anos, desde seu ajuizamento e consideradas todas as instâncias.

Diante do período plurianual dos direitos trabalhistas reivindicados judicialmente, a liquidação judicial acabava por concentrar, em um único ato de recebimento, os valores pertinentes a exercícios fiscais anteriores. Esse acúmulo ocorria porque a regra geral de tributação — o regime de caixa, vigente tanto no passado quanto na atualidade — desconsiderava os períodos de formação do direito naqueles recebimentos judiciais, submetendo o montante integral à incidência da tabela progressiva como se fosse um rendimento originado no ano corrente.

Além da tributação concentrada, como se rendimentos anteriores fossem atuais, dois outros componentes afetavam severamente os valores percebidos pelo contribuinte: o longo prazo para o encerramento da ação e a corrosão monetária, provocada pela inflação fora de controle entre 1988 e 1994, sobre os montantes em litígio.

É com foco nessa concentração artificial de renda, bem como em seus reflexos tributários nos rendimentos, agravados pela desvalorização da moeda, que o próximo tópico apresentará o modelo anterior do tratamento tributário dispensado aos RRA e, em seguida, descreverá o aperfeiçoamento legal posteriormente implantado para, de algum modo, abrandar a distorção provocada pelo fator temporal.

1.1 O regime de caixa e as distorções na tributação dos RRA

Conduzindo o registro histórico da tributação concentrada dos RRA ao ambiente normativo, a análise passa a ter como referência a Lei 7.713/1988, publicada no Diário Oficial da União (DOU) em 23/12/1988 e com vigência a partir de 01/01/1989, conforme previsão em seu art. 57, em observância ao princípio da anterioridade anual previsto no art. 150, III, “b”, da Constituição Federal de 1988 (CF/88).

A instituição da referida norma insere-se em um período interno marcado por profundas transformações institucionais e econômicas, notadamente o processo de redemocratização em substituição ao regime militar e a acentuada instabilidade econômica e social decorrente de um cenário de inflação elevada. Nesse contexto, destaca-se a promulgação da Constituição Federal de 1988, ocorrida dois meses antes da publicação da lei em análise, cujo novo arranjo constitucional revela-se elemento relevante para a compreensão das escolhas normativas então adotadas no campo da tributação da renda.

Considerando esse período caracterizado pelas enormes mudanças internas, admite-se que a Lei 7.713/1988 se abriga sob a nova Constituição na figura de um dos instrumentos necessários ao enquadramento da legislação vigente às diretrizes previstas na Carta Magna promulgada, porém, é necessário ressaltar que esse processo não ocorreu de forma imediata ou sistêmica, uma vez que diversas normas de natureza tributária permaneceram em vigor, como o Regulamento do Imposto de Renda aprovado em 1980, que somente viria a ser integralmente substituído em 1994.

É nesse contexto de adaptação legislativa, e já no âmbito específico dos RRA, que se insere o art. 12 da Lei 7.713/1988, cuja redação original disciplinou expressamente a tributação de rendimentos de anos anteriores percebidos de forma concentrada, nos seguintes termos:

“Art. 12. No caso de RRA, o imposto incidirá, no mês do recebimento ou crédito, sobre o total dos rendimentos, diminuídos do valor das despesas com ação judicial necessárias ao seu recebimento, inclusive de advogados, se tiverem sido pagas pelo contribuinte, sem indenização.”

Do teor do dispositivo, depreende-se que, no caso de RRA, foi mantida a tributação segundo o regime de caixa, vinculando a ocorrência do fato gerador ao momento do efetivo recebimento ou do crédito do rendimento ao contribuinte, independentemente do período a que este se referisse.

Inegavelmente, foi providencial a explícita previsão legal do tratamento tributário dos RRA. No entanto, a inflação elevada vigente à época — conforme ilustrado no gráfico abaixo —, associada ao longo tempo necessário à liquidação das demandas judiciais, distorcia o valor econômico do rendimento no momento de seu recebimento, pois a inflação acumulada inflava a base de cálculo do imposto, assim potencializando os efeitos da progressividade da tributação sobre valores correspondentes a períodos anteriores, cuja percepção pelo contribuinte não decorria de sua vontade e com base em decisão judicial, apenas se realizava bem posteriormente.

Gráfico de linhas do IPCA anual acumulado entre 1988 e 1998, em escala logarítmica.
Figura 1 — Taxa de inflação anual (IPCA) apurada em cada ano do período 1988–1998. Fonte: IBGE - tabelas

Assim, na versão original do art. 12, o contribuinte ficava onerado duplamente: em primeiro lugar, pela perda do poder aquisitivo da moeda ao longo do tempo; e, em segundo, pela tributação concentrada de rendimentos correspondentes a vários exercícios anteriores, usualmente submetidos à alíquota máxima do imposto sobre a renda da pessoa física, nos termos do art. 25 da própria Lei 7.713/1988.

Como resposta às distorções inerentes à tributação concentrada dos RRA, o próximo subtópico examina a superação desse modelo inicial mediante a introdução do art. 12-A, já em um ambiente de maior estabilidade econômica, inflação controlada e com um sistema normativo tributário menos disperso e mais coerente.

A inflexão normativa examinada a seguir pode ser sintetizada na imagem abaixo:

Mudança no tratamento do IRRF a partir de 2010 e seus desdobramentos até 2025

1.2 O novo modelo de tributação dos RRA após a modificação da Lei 7.713/1988

Embora tenha sido revogado em 2015 pela Lei 13.149, o art. 12 da Lei 7.713/1988 teve sua eficácia prática substancialmente reduzida já em 2010, com a edição da Medida Provisória 497, posteriormente convertida na Lei 12.350, que introduziu o art. 12-A.

A modificação legislativa decorre do fato de que, entre meados da década de 1990 e o ano de 2010, intensificou-se a propositura de ações perante a Justiça Federal por contribuintes inconformados com a tributação concentrada dos RRA, calculada mediante a aplicação de alíquotas vigentes à época do pagamento sobre valores correspondentes a períodos pretéritos, muitas vezes abrangendo vários exercícios fiscais.

Frente à multiplicidade de demandas de idêntica natureza, o cenário jurídico conduziu à consolidação de entendimento jurisprudencial no âmbito do Superior Tribunal de Justiça, culminando, em 2010, na uniformização da controvérsia sob o rito dos recursos repetitivos. Nesse cenário, a introdução do art. 12-A na Lei 7.713/1988 representou resposta legislativa a um ambiente de litigiosidade já amadurecido, tomando como marco referencial, especialmente, o julgamento do REsp nº 1.118.429/SP, no qual foi reconhecido que os RRA — notadamente aqueles decorrentes de decisões judiciais — não deveriam ser tributados mediante a concentração integral da renda no ano do recebimento, como decorrência da aplicação pura do regime de caixa.

O art. 12-A da Lei 7.713/1988, em sua redação atualmente vigente, dispõe o seguinte:

Art. 12-A. Os rendimentos recebidos acumuladamente e submetidos à incidência do imposto sobre a renda com base na tabela progressiva, quando correspondentes a anos-calendário anteriores ao do recebimento, serão tributados exclusivamente na fonte, no mês do recebimento ou crédito, em separado dos demais rendimentos recebidos no mês. (Redação dada pela Lei nº 13.149, de 2015)

Exibir §§ e incisos do art. 12-A

§ 1º O imposto será retido pela pessoa física ou jurídica obrigada ao pagamento ou pela instituição financeira depositária do crédito e calculado sobre o montante dos rendimentos pagos, mediante a utilização de tabela progressiva resultante da multiplicação da quantidade de meses a que se refiram os rendimentos pelos valores constantes da tabela progressiva mensal correspondente ao mês do recebimento ou crédito. (Incluído pela Lei nº 12.350, de 2010)

§ 2º Poderão ser excluídas as despesas, relativas ao montante dos rendimentos tributáveis, com ação judicial necessárias ao seu recebimento, inclusive de advogados, se tiverem sido pagas pelo contribuinte, sem indenização. (Incluído pela Lei nº 12.350, de 2010)

§ 3º A base de cálculo será determinada mediante a dedução das seguintes despesas relativas ao montante dos rendimentos tributáveis: (Incluído pela Lei nº 12.350, de 2010)

I – importâncias pagas em dinheiro a título de pensão alimentícia em face das normas do Direito de Família, quando em cumprimento de decisão judicial, de acordo homologado judicialmente ou de separação ou divórcio consensual realizado por escritura pública; e (Incluído pela Lei nº 12.350, de 2010)

II – contribuições para a Previdência Social da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. (Incluído pela Lei nº 12.350, de 2010)

§ 4º Não se aplica ao disposto neste artigo o constante no art. 27 da Lei no 10.833, de 29 de dezembro de 2003, salvo o previsto nos seus §§ 1º e 3º. (Incluído pela Lei nº 12.350, de 2010)

§ 5º O total dos rendimentos de que trata o caput, observado o disposto no § 2o, poderá integrar a base de cálculo do Imposto sobre a Renda na Declaração de Ajuste Anual do ano-calendário do recebimento, à opção irretratável do contribuinte. (Incluído pela Lei nº 12.350, de 2010)

§ 6º Na hipótese do § 5o, o Imposto sobre a Renda Retido na Fonte será considerado antecipação do imposto devido apurado na Declaração de Ajuste Anual. (Incluído pela Lei nº 12.350, de 2010)

§ 7º Os rendimentos de que trata o caput, recebidos entre 1o de janeiro de 2010 e o dia anterior ao de publicação da Lei resultante da conversão da Medida Provisória no 497, de 27 de julho de 2010, poderão ser tributados na forma deste artigo, devendo ser informados na Declaração de Ajuste Anual referente ao ano-calendário de 2010. (Incluído pela Lei nº 12.350, de 2010)

§ 8º (VETADO) (Incluído pela Lei nº 12.350, de 2010)

§ 9º A Secretaria da Receita Federal do Brasil disciplinará o disposto neste artigo. (Incluído pela Lei nº 12.350, de 2010)

Embora preserve o regime de caixa como critério formal de incidência — mantendo o fato gerador juridicamente associado ao mês do recebimento ou crédito (caput) —, o art. 12-A introduz relevante alteração na forma de aplicação da tabela progressiva. Ao determinar que os valores da tabela mensal sejam multiplicados pelo número de meses a que se referem os rendimentos (§ 1º), o legislador instituiu mecanismo corretivo destinado a mitigar os efeitos da tributação concentrada.

Com isso, a técnica adotada recompõe artificialmente a dimensão temporal da renda, distribuindo seus efeitos econômicos ao longo dos períodos a que se vinculam, sem, contudo, afastar o regime de caixa como referência jurídica do fato gerador. Afasta-se, assim, a aplicação direta da alíquota máxima sobre valores referentes a exercícios pretéritos, sem exigir a reabertura de períodos já encerrados. O modelo revela-se, portanto, intermediário: preserva-se a estrutura formal do regime de caixa e, simultaneamente, neutralizam-se suas distorções mais gravosas no que se refere à progressividade.

Além disso, o art. 12-A positivou deduções frequentemente reconhecidas na via judicial, como as despesas necessárias ao recebimento dos rendimentos, inclusive honorários advocatícios (§ 2º), bem como a pensão alimentícia judicial e as contribuições previdenciárias obrigatórias (§ 3º). O dispositivo também instituiu a faculdade de o contribuinte optar pela inclusão dos RRA na Declaração de Ajuste Anual (§ 5º), hipótese em que o imposto sobre a renda retido na fonte deixa de ter caráter definitivo e passa a ser considerado antecipação do imposto devido na apuração anual (§ 6º). Por fim, a atribuição de competência normativa à Receita Federal do Brasil (§ 9º) completa o desenho do modelo, viabilizando sua aplicação uniforme, em consonância com o Anexo IV previsto no art. 37, § 2º, da IN RFB 1.500/2014.

O modelo jurídico introduzido pelo art. 12-A evidencia que a superação das distorções notadas na tributação concentrada dos RRA não se realizou por meio da alteração do critério temporal do fato gerador, mas pela redefinição da forma de aplicação da tabela progressiva. Essa alteração normativa projeta efeitos diretos na apuração do imposto, exigindo a análise de sua aplicação no âmbito da Declaração de Ajuste Anual, especialmente no que se refere à formação da base de cálculo, à apuração do imposto devido e às alternativas facultadas ao contribuinte.

2 Tratamento dos RRA na Declaração de Ajuste Anual

Superado o exame do desenvolvimento normativo e da sistemática introduzida pelo art. 12-A, passa-se à sua aplicação na Declaração de Ajuste Anual do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física, momento em que a disciplina dos RRA deixa de se apresentar apenas como construção jurídica e assume relevância prática na definição da carga tributária efetiva do contribuinte.

Inicialmente, é indispensável compreender como os RRA ingressam formalmente no sistema declaratório do imposto de renda, processo que se inicia com base nos valores constantes do Comprovante de Rendimentos Pagos e de Imposto Sobre a Renda Retido na Fonte, documento que funciona como informação oficial para a apuração e posterior declaração desses rendimentos.

Esse formulário, que deve ser entregue pela fonte pagadora ao contribuinte até o último dia útil do mês de fevereiro do ano subsequente aos eventos — ou por ocasião do desligamento funcional do trabalhador —, encontra previsão no art. 3º da IN RFB 2.060/2021, sendo reproduzido a seguir o quadro específico destinado ao registro dos RRA.

Reprodução do quadro 6 do informe anual de rendimentos pagos e de retenção de imposto sobre a renda retido na fonte
Figura 2 — Quadro informativo relativo aos RRA. Fonte: Adaptado do Anexo I da IN RFB 2.060/2021.

A organização dos valores informados nesse formulário oficial segue a mesma sistemática prevista nos parágrafos do art. 12-A da Lei 7.713/1988, sendo necessário destacar que, quanto a esses dados, o contribuinte não dispõe de autonomia para eleger valores ou critérios de apuração. Como se trata de informações fidedignas prestadas pela fonte pagadora (e gravadas nos sistemas fiscais do governo), geralmente vinculada ao setor responsável pela liquidação de decisões judiciais, eventuais divergências ou erros na transposição desses dados podem acarretar inconsistências na apuração ou submeter a declaração à malha fiscal, com reflexos no regular processamento da declaração de ajuste anual transmitida pelo contribuinte.

Na sequência, procede-se ao registro desses valores nos campos específicos do aplicativo oficial da Declaração de Ajuste Anual (DAA), o que, na versão do programa da DAA para computador, se realiza pela seleção da opção Rendimentos Recebidos Acumuladamente na barra de navegação à esquerda e, em seguida, pelo acionamento do comando Novo, no rodapé da janela exibida à direita da tela. A partir de então, será disponibilizado o quadro destinado ao cadastro dos valores, abaixo reproduzido:

Quadro de cadastro de valores de rendimentos recebidos acumuladamente na Declaração de Ajuste Anual
Figura 3 — Quadro de cadastro de valores relativos aos RRA. Fonte: captura de tela da DAA/2026.

NOTA TÉCNICA:

O programa da Declaração de Ajuste Anual prevê campos específicos para o registro de valores recebidos a título de juros e de parcelas potencialmente isentas, como a isenção conferida aos proventos de aposentadoria, reserva remunerada, reforma e pensão percebidos por contribuintes com idade superior a 65 anos. No caso dos rendimentos recebidos acumuladamente, a Instrução Normativa RFB 1.500/2014 estabelece tratamento diferenciado para os juros, a depender de sua natureza jurídica, enquanto a aplicação da isenção dos 65 anos encontra-se condicionada à opção pelo regime de tributação adotado, conforme indicado pelo próprio sistema da Receita Federal.

Tais distinções não decorrem de uma regra única ou de aplicação uniforme, uma vez que dependem da natureza jurídica dos valores envolvidos e da forma de tributação escolhida pelo contribuinte, não sendo suscetíveis de generalização. Diante disso, o tratamento específico dos juros e das parcelas isentas não será aprofundado neste estudo, que se concentra na sistemática geral dos rendimentos recebidos acumuladamente, cabendo apenas ressaltar que, em qualquer hipótese, a correta apuração pressupõe a transposição fiel das informações constantes do informe de rendimentos fornecido pela fonte pagadora, sob pena de inconsistências no processamento da declaração.

Como indicado na parte superior da Figura anterior, observa-se que a sistemática vigente não se limita à tributação exclusiva na fonte, admitindo, mediante opção expressa do contribuinte, a inclusão dos rendimentos na base de cálculo da declaração anual, hipótese em que o imposto retido assume natureza de antecipação. A adequada compreensão dessa dualidade — e de seus impactos econômicos — exige abordagem comparativa, a ser desenvolvida a partir de estudo de caso no próximo subtópico.

2.1 Apuração do imposto anual pelas duas modalidades de tributação dos RRA

Com base nos registros históricos e jurídicos anteriormente apresentados acerca da evolução do tratamento tributário dos RRA, desenvolve-se a seguir um estudo de caso comparativo com foco nos reflexos da opção de tributação sobre o valor final do imposto apurado.

Tomando por referência os valores constantes no próximo quadro, realizam-se duas simulações envolvendo valores idênticos nos RRA e nos rendimentos tributáveis ordinários do ano-calendário; a única distinção entre as hipóteses examinadas reside no número de meses (NM) a que se referem os RRA, fixado em 6 meses na primeira situação e em 24 meses na segunda, que resultará em diferentes valores de IRRF.

Rendimentos do ano-calendário 2025
Rendimentos tributáveis brutos R$ 38.962,00
Previdência social R$ 3.214,20
IRRF R$ 205,30
Rendimentos recebidos acumuladamente
Rendimentos tributáveis brutos R$ 92.195,50
Despesas judiciais R$ 9.219,55
Previdência social R$ 5.070,75

O valor do IRRF incidente sobre os rendimentos tributáveis ordinários auferidos no decorrer do ano de 2025 foi calculado com base nas duas tabelas progressivas mensais sucessivas vigentes nesse ano, uma aplicável ao período de janeiro a abril e outra de maio a dezembro. Por sua vez, a retenção tributária incidente sobre os RRA, em ambas as hipóteses consideradas (6 meses, com recebimento no mês 1, e 24 meses, com recebimento no mês 7), foi apurada de acordo com os próximos cálculos exemplificativos, realizados com apoio das tabelas práticas constantes no Anexo IV da IN RFB 1.500/2014, específicas para esses rendimentos e a seguir reproduzidas:

VIII – De fevereiro de 2024 a abril de 2025
Base de cálculo Alíquota
(%)
Parcela a
deduzir (R$)
Até (2.259,20 × NM) 0 0
Acima de (2.259,20 × NM) até (2.826,65 × NM) 7,5 169,44000 × NM
Acima de (2.826,65 × NM) até (3.751,05 × NM) 15 381,43875 × NM
Acima de (3.751,05 × NM) até (4.664,68 × NM) 22,5 662,76750 × NM
Acima de (4.664,68 × NM) 27,5 896,00150 × NM
IX – A partir de maio de 2025
Base de cálculo Alíquota
(%)
Parcela a
deduzir (R$)
Até (2.428,80 × NM) 0 0
Acima de (2.428,80 × NM) até (2.826,65 × NM) 7,5 182,16000 × NM
Acima de (2.826,65 × NM) até (3.751,05 × NM) 15 394,15875 × NM
Acima de (3.751,05 × NM) até (4.664,68 × NM) 22,5 675,48750 × NM
Acima de (4.664,68 × NM) 27,5 908,72100 × NM

Para realizar os cálculos de IRRF sobre RRA, são seguidas as determinações do Art. 12-A da Lei 7.713/1988 (reforçadas pelos Arts. 38 e 39 da IN RFB 1.500/2014), onde consta que dos rendimentos tributáveis brutos, dentre outras especificidades, poderão ser abatidas as despesas judiciais e deduzidas as contribuições à previdência oficial, de modo que a base de cálculo do IRRF corresponderá a R$ 77.905,20, obtida mediante a seguinte operação:

Base de cálculo do IRRF (BC) = Rendimentos tributáveis brutos − Despesas judiciais − INSS
92.195,50 − 9.219,55 − 5.070,75 = 77.905,20

Em continuidade, com base na tabela prática da Receita Federal reproduzida anteriormente, a apuração do IRRF é realizada da seguinte forma:

A) do RRA recebido integralmente no mês 1, com NM = 6; como (BC ÷ NM) > 4.664,68, a tributação está localizada na faixa de 27,5%, segundo a Tabela VIII:

IRRF = (BC × 27,5%) − (896,00150 × 6)
IRRF = 77.905,20 × 0,275 − 5.376,01
IRRF = 16.047,92

B) do RRA recebido integralmente no mês 7, com NM = 24; como 2.826,65 < (BC ÷ NM) < 3.751,05, a tributação enquadra-se na faixa de 15%, com base na Tabela IX:

IRRF = (BC × 15%) − (394,15875 × 24)
IRRF = 77.905,20 × 0,15 − 9.459,81
IRRF = 2.225,97

Definidos os valores do IRRF incidente sobre os RRA, passa-se à apuração do imposto devido na Declaração de Ajuste Anual. Com base na tabela anual da DAA 2025/2026 e considerando as duas modalidades de tributação dos RRA — por tributação exclusivamente na fonte ou pelo ajuste anual —, obtêm-se os seguintes resultados:

A) Hipótese de RRA com NM = 6:

A) Mantendo RRA com tributação exclusiva na fonte
Valores do ano-
calendário 2025
Declaração
Completa (R$)
Declaração
Simplificada (R$)
Rendimentos
ordinários 2025
38.962,00 38.962,00
RRA (mês 1) - -
Σ rendimento
tributável bruto
38.962,00 38.962,00
Descontos legais 3.214,20 -
Deduções da BC
dos RRA (NM = 6)
- -
Desconto
simplificado
- 7.792,40
BC do IR anual 35.747,80 31.169,60
Valor bruto
do IR anual
683,14 202,68
(-) IRRF 2025 205,30 205,30
(-) IRRF RRA - -
Resultado do IR 477,84 (2,62)
B) Acrescentando os RRA aos rendimentos anuais
Valores do ano-
calendário 2025
Declaração
Completa (R$)
Declaração
Simplificada (R$)
Rendimentos
ordinários 2025
38.962,00 38.962,00
RRA (mês 1) 82.975,95 82.975,95
Σ rendimento
tributável bruto
121.937,95 121.937,95
Descontos legais 3.214,20 -
Deduções da BC
dos RRA (NM = 6)
5.070,75 -
Desconto
simplificado
- 16.754,34
BC do IR anual 113.653,00 105.183,61
Valor bruto
do IR anual
20.400,79 18.071,71
(-) IRRF 2025 205,30 205,30
(-) IRRF RRA 16.047,92 16.047,92
Resultado do IR 4.147,57 1.818,49

B) Hipótese de RRA com NM = 24:

A) Mantendo RRA com tributação exclusiva na fonte
Valores do ano-
calendário 2025
Declaração
Completa (R$)
Declaração
Simplificada (R$)
Rendimentos
ordinários 2025
38.962,00 38.962,00
RRA (mês 7) - -
Σ rendimento
tributável bruto
38.962,00 38.962,00
Descontos legais 3.214,20 -
Deduções da BC
dos RRA (NM = 24)
- -
Desconto
simplificado
- 7.792,40
BC do IR anual 35.747,80 31.169,60
Valor bruto
do IR anual
683,14 202,68
(-) IRRF 2025 205,30 205,30
(-) IRRF RRA - -
Resultado do IR 477,84 (2,62)
B) Acrescentando os RRA aos rendimentos anuais
Valores do ano-
calendário 2025
Declaração
Completa (R$)
Declaração
Simplificada (R$)
Rendimentos
ordinários 2025
38.962,00 38.962,00
RRA (mês 7) 82.975,95 82.975,95
Σ rendimento
tributável bruto
121.937,95 121.937,95
Descontos legais 3.214,20 -
Deduções da BC
dos RRA (NM = 24)
5.070,75 -
Desconto
simplificado
- 16.754,34
BC do IR anual 113.653,00 105.183,61
Valor bruto
do IR anual
20.400,79 18.071,71
(-) IRRF 2025 205,30 205,30
(-) IRRF RRA 2.225,96 2.225,96
Resultado do IR 17.969,53 15.640,45

2.2 Análise comparativa dos resultados apurados

Embora as memórias de cálculo anteriores tenham sido meramente ilustrativas, todos os valores são consistentes com os resultados obtidos nas ferramentas disponibilizadas pela Receita Federal do Brasil. O valor do IRRF sobre os RRA foi confirmado pelo simulador oficial on-line, enquanto o resultado anual do imposto foi consolidado no sistema da DAA IRPF 2026.

Neste ínterim, o responsável pelo preenchimento da DAA precisa ser criterioso e zeloso com os dados e valores preenchidos nos campos do quadro de RRA (vide Figura 3, no Tópico 2) porque o seu preenchimento envolve algumas armadilhas pouco perceptíveis. A ambiguidade se inicia na informação das despesas judiciais (eventuais taxas de praxe e honorários advocatícios); apesar de serem passíveis de abatimento dos rendimentos brutos, visto que neste quadro não há espaço para informá-las, será necessário informar no campo "Rendimentos Tributáveis" o valor de Rendimentos Brutos − Despesas Judiciais. Por outro lado, há a retenção previdenciária — governamental ou estatutária — que é dedutível; para ela sim, há espaço para alocação do valor, no entanto, se ainda em "Rendimentos Tributáveis" informar Rendimentos Brutos − Despesas Judiciais − Previdência, o cálculo final do imposto não será prejudicado, desde que seja omitido o valor previdenciário no respectivo campo.

Resta agora o tratamento tributário do pagamento dos honorários advocatícios, que geralmente são descontados no momento do saque das verbas disponíveis em conta bancária judicial. Obrigatoriamente, os honorários profissionais devem ser informados no quadro de "Pagamentos Efetuados" (códigos 60, 61 ou 62, de acordo com a natureza da ação), porém, essas despesas a abater dos RRA brutos não são automaticamente consideradas pela DAA do IRPF (e nem abatidas dos rendimentos brutos) para consolidar o valor do imposto sobre RRA; vale ressaltar que quando houver despesas com honorários advocatícios, elas também deverão ser subtraídas do valor a ser informado no campo "Rendimentos Tributáveis".

Por fim, é indiferente o fato de este estudo envolver apenas as deduções legais previdenciárias porque, frente à enormidade dos contribuintes brasileiros — e respectivas particularidades, sobretudo em relação às deduções legais — foi escolhida apenas a dedução padrão e, alternativamente, pode ser aplicado o desconto anual simplificado, cujo limite consta no quadro "Diretrizes sobre deduções e bases de cálculo", no início da página de tabela progressiva de IRRF deste site.

Transpostos os obstáculos já detalhados, os resultados apurados nos quadros de cálculos apresentados acima demonstram que, pelo menos neste estudo de caso, prevalece a opção de submeter os RRA à tributação exclusivamente na fonte pelos seguintes motivos:

  • A fórmula de cálculo aplicada, segundo o Art. 12-A da Lei 7.713/1988, permite que o valor do tributo seja diluído ao longo do tempo, gerando uma retenção bem inferior àquela que era aplicada antes da implantação desta sistemática no ano de 2010 (IN 497/2010, convertida na Lei 12.350/2010).
  • Quando é escolhida a tributação exclusivamente na fonte, apesar dos valores cabíveis serem informados na declaração, o valor do imposto sobre os RRA é calculado em separado, de modo que será 100% absorvido pelo IRRF que consta no informe anual oferecido pela fonte pagadora.
  • A escolha de tributar os RRA no ajuste anual (junto com os rendimentos ordinários) somará os rendimentos regulares do ano de referência da DAA com os rendimentos de anos anteriores, gerando uma nova base de cálculo para a apuração anual do imposto e assim, o imposto cronologicamente diluído no cálculo do IRRF sobre RRA será insuficiente para absorver o novo imposto calculado, gerando uma oneração tributária muito grande.
  • Quanto menor for o número de meses, maior será o valor do IRRF a abater sobre o IR anual dos RAA tributados no ajuste anual, no entanto, continuam inferiores ao valor do resultado final e, sob o aspecto tributário, não oferecerão vantagem econômica ao contribuinte.

Enfim, os resultados obtidos neste estudo de caso demonstram, sob os aspectos matemático e tributário, que a opção pela tributação dos RRA exclusivamente na fonte revela-se mais vantajosa ao contribuinte em termos de economia tributária.

Conclusão

Com um relato histórico tributário desde a promulgação da CF/1988, evidenciando aspectos sociais, redemocratização e problemas econômicos, este estudo demonstrou que a tributação dos RRA até 2010 era deslocada do tempo, submetendo o recebimento dos recursos a uma tributação concentrada, irrecuperável e como se tais valores correspondessem a rendimentos do período de seu recebimento, independentemente de os direitos serem judicialmente reconhecidos como de competências de vários períodos anteriores.

O tratamento tributário destes fatos foi modificado com a implantação do Art. 12-A na Lei 7.713/1988. Este dispositivo legal reconheceu outros abates na base de cálculo do imposto (como previdência, parcela isenta de aposentadoria e pensão alimentícia) e determinou que a carga tributária sobre rendimentos desta natureza seria distribuída ao longo do tempo entre o reconhecimento do fato gerador e a respectiva liquidação; prevaleceu a tributação pelo regime de caixa, no entanto, enfim passando o impacto tributário a guardar compatibilidade com o lapso temporal a que os rendimentos efetivamente se referiam.

Outra inovação introduzida por este Artigo foi facultar ao contribuinte optar pela alteração da modalidade de tributação do RRA, de exclusivamente na fonte para tributação pelo ajuste anual, transformando o IRRF retido na ação como antecipação do imposto anual apurado na consolidação da declaração cabível; esta dualidade vem ao encontro do objetivo desta análise técnica.

No entanto, antes de decidir sobre a forma de apresentação dos RRA à tributação, é indispensável analisar os valores tributáveis regulares recebidos no decorrer do ano-calendário da DAA a ser apresentada.

Faz-se essa afirmação porque, como por padrão o RRA é tributado exclusivamente na fonte, cabe ao contribuinte — ou ao profissional contratado para preencher a declaração — previamente avaliar a carga tributária, isoladamente, sobre os rendimentos regulares a declarar, considerando os descontos legais ou o desconto simplificado, e assim escolher o resultado tributário mais benéfico. Somente após esta posição preliminar é que se pode gravar os valores dos RRA para então verificar o resultado anual definitivo por tributação exclusiva na fonte ou por ajuste anual.

À luz dos cálculos apresentados e do estudo de caso desenvolvido, disponíveis respectivamente nos subtópicos 2.1 e 2.2, conclui-se que, frente aos valores admitidos e nas duas hipóteses de números de meses (6 e 24), a opção pela tributação exclusivamente na fonte foi benéfica ao contribuinte pois, nessa modalidade, desde que o quadro compatível da RRA tenha sido corretamente preenchido, como o imposto sobre o RRA é calculado separadamente do incidente sobre os rendimentos do ano-calendário, o tributo sobre o RRA será integralmente compensado pelo já retido, restando ao contribuinte recolher imposto complementar (ou restituir) estritamente sobre seus rendimentos do ano-calendário da declaração.

Os cálculos demonstraram que o número de meses é um valor inversamente proporcional ao do imposto retido. Deste modo, com um número baixo de meses (com origem em período anterior ao do ano-calendário da declaração), de fato o valor do IRRF será substancialmente maior — tal qual o valor consolidado do imposto apurado no ajuste anual, se os RRA forem somados com os regulares —, porém, mesmo assim ele não será capaz de reduzir o imposto anual apurado a valor inferior ao obtido na tributação exclusivamente na fonte.

Considerando a diversidade de situações dos contribuintes brasileiros, bem como as inúmeras peculiaridades das demandas judiciais, dos respectivos custos processuais e das despesas dedutíveis incidentes sobre os rendimentos tributáveis desta natureza, esta conclusão não deve ser interpretada como uma regra absoluta ou um modelo aplicável indistintamente a todas as situações. Neste cenário, as simulações desenvolvidas no estudo de caso demonstraram que, nas hipóteses analisadas, tende a ser mais vantajoso ao contribuinte manter os RRA submetidos à tributação exclusivamente na fonte, pois, nessa modalidade, o imposto incidente sobre esses rendimentos é integralmente absorvido pelo IRRF já retido.

Em sentido diverso, quando é escolhida a tributação pelo ajuste anual, os rendimentos referentes a períodos anteriores passam a integrar a base de cálculo do ano-calendário da declaração e, somados aos rendimentos ordinários, elevam significativamente o imposto anual apurado, ao passo que o IRRF incidente sobre os RRA, calculado de forma diluída em função do número de meses (NM), revela-se insuficiente para compensar esse acréscimo da carga tributária, circunstância que, nas hipóteses examinadas, tornou economicamente mais favorável a manutenção da tributação exclusivamente na fonte.

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